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- 31-10-2011 | Nereida López Vidales
Um Novo Paradigma para o Serviço Público de Televisão na Era Digital

Post by:
Francisco Rui Cádima
Departamento de Ciências da Comunicação (FCSH)
Universidade Nova de Lisboa

Que novo modelo e novas estratégias se podem configurar face às debilidades endémicas do nosso (português) sector de media, mas também face às potencialidades e dinâmicas de convergência desta área, que engloba hoje os media, as comunicações e as redes?

Como argumentar, no âmbito da hipotética – mas também algo real – reconfiguração do envolvimento público tradicional no sector de media, em torno de uma nova ordem comunicacional aberta, fundamentalmente, às potencialidades dos novos media e da Internet? Como pensar o novo paradigma e o lugar do Serviço Público de Televisão (ou do Public Service Media) no novo contexto da era Digital?

A primeira questão é ver este problema de forma distanciada, a dois níveis: quer relativamente à crise do sistema de media português em si mesmo, quer relativamente ao carácter algo estanque do velho campo dos media face a toda uma componente criativa, interactiva, específica desta era dos “digital natives”.

No que concerne à redefinição do investimento público nos conteúdos da convergência – e também nessa outra perspectiva da reconfiguração do modelo do public service media, uma primeira questão reside justamente no potencial de um modelo estratégico de convergência entre as dimensões da comunicação e da cultura e os digital media numa lógica integrada com as indústrias culturais e criativas, tendo por objectivo final a promoção da língua e da cultura, das artes e do património portugueses/europeus, num quadro de distribuição híbrida – audiovisual/net.

Convergência que deve garantir, por um lado, a presença ou a permanência “em aberto” (e sempre “no ar”) da herança cultural portuguesa/europeia e dos seus conteúdos culturais públicos, e, por outro lado, a presença da “Ideia de Europa” (George Steiner), através do novo modelo de informação multiplataforma.

Esta é já uma outra lógica, que em termos de definição de políticas públicas é claramente “pós-mediática”, procurando abranger não só o comunicacional, mas também o histórico e o criativo já em ambiente web, fazendo convergir conhecimento, lazer, experiência, interacção e participação. Como se essas novas plataformas de convergências, assentes numa cultura de new media e nos novos ambientes web, nos convocassem enquanto “produsers” para essa imersão, para experienciar/partilhar o acontecimento, as comunidades, os prazeres e lazeres, as redes, o capital social, a memória e a história…

Para pensar este modelo político-cultural e de gestão de plataformas e redes do domínio público, assente em estruturas agregadoras mais “leves” e o mais flexíveis possível, muito embora suportadas em redes de nova geração, é fundamental que se repensem um tanto radicalmente as opções a tomar no domínio das políticas públicas intersectoriais: a convergência estratégica (de redes e conteúdos), o modelo de gestão e orçamental, a formação e os recursos humanos. A redefinição destas áreas reencontra-se assim num novo “cluster” – o da economia cultural e criativa – sendo que este poderia ser um desígnio nacional/europeu de médio prazo.

A pertinência do debate sobre o novo paradigma inscreve-se desde logo naquilo que penso ser uma crise conjuntural de média duração do sector da comunicação social – e que se verifica já também no âmbito dos novos media. Essa crise começa ainda nos anos 90 e continua a ser reforçada no final dos anos 90 com a crise das dot.com, com o rebentar da bolha tecnológica e, simultaneamente, com a inflexão drástica do mercado da publicidade no início da década, em 2000/01. A combinação destes dois factores afectou grandemente, nomeadamente em Portugal, os mercados de media tradicionais – imprensa, rádio e televisão.

Daí resultaram novas engenharias de compromisso (nos sistemas de media/económico/político) que nos fizeram chegar ao ponto onde estamos. O actual contexto é, portanto, consensualmente reconhecido como um tempo de crise complexa no sector de media tradicional desde o culminar das grandes crises dos anos 2000-2010.

Vários analistas consideram que houve uma falta de escrutínio por parte dos media no desenrolar e concretização dessas crises – crise dotcom, legitimação da invasão do Iraque, subprime, endividamento obsceno dos Estados e das famílias, produtos tóxicos, crise financeira, regulação dos mercados, etc., etc. Para alguns autores como Max Otte, por exemplo, há como que uma espécie de vírus no sistema de media que faz propagar não a sociedade do conhecimento, mas uma sociedade da desinformação.

É assim evidente que os media, de um modo geral, contribuíram para este sistema de desinformação, o qual, pela experiência vivida designadamente após os anos 2007/08, conduziu a um cíclico e quase eminente colapso social e económico do chamado mundo desenvolvido. A emergência de fenómenos como o Wikileaks, por exemplo, deve começar por ser pensada, na actual conjuntura, no contexto da marcante crise do jornalismo e do sistema de media, quer no plano económico, quer no plano de conteúdos. A verdade é que, como dizia Jay Rosen – um académico norte-americano de grande prestígio, «the watchdog press died» – a imprensa vigilante, escrutinadora, aparenta atravessar uma espécie de coma induzido.

Surgem, por outro lado, dinâmicas novas, no contexto do digital, que o sistema de media tradicional não está a acompanhar: refiro-me ao crowdsourcing e ao modelo de peer production (de produção colaborativa) que se sobrepõem à arquitectura da rede e à computação em rede, utilizam a inteligência, o conhecimento colectivo e o saber fazer disseminado na rede, o que, de forma colaborativa, contribui para criar e disseminar informação, produzir conteúdo (Wikipedia) ou desenvolver software (Linux).

O que isto significa é que hoje, do ponto de vista das práticas jornalísticas, evoluímos para um jornalismo assimétrico. Quer dizer que o jornalismo e os media necessitam de reconverter práticas e dinâmicas, integrando de forma interactiva as novas comunidades em rede e deixando a sua tradicional resistência à mudança. O novo ecossistema digital, de tipo matricial, apela a um novo tipo de jornalismo fortemente colaborativo, assimétrico – entre fontes tradicionais, fontes colaborativas, data mining (bases de dados, regularidades, padrões consistentes, alertas), jornalistas propriamente ditos, social media, produsers, etc.

Mas a Internet não é, ainda hoje, nenhuma espécie de mirífica salvação (veja-se o caso Wikileaks). Daí que a divulgação do segredo não queira dizer absoluta transparência sobre o mundo e as coisas. Significa que a divulgação de um segredo pode esconder outro, e a transparência tornar-se opacidade. Essa é uma espécie de «ideologia da transparência» que, definitivamente, não leva a lado nenhum.

Por outro lado, a Internet está a trazer-nos alguns dissabores: pensava-se que a Net era um espaço de grande abertura e partilha, mas isso só em parte é verdade. Mathew Hindman, no livro O Mito da Democracia Digital, esclareceu cabalmente que em termos de grandes sistemas e conglomerados de media/new media a Net tem um grau de concentração mais elevado do que sucede nos mercados tradicionais (ex: USA).

Da mesma forma, a política na Net (salvo o caso Obama e pouco mais) é mais do mesmo, por assim dizer… Um certo ciberoptimismo sobre a possibilidade da Internet estar a democratizar a política é uma ideia já em falência, uma vez que não somente há mais desigualdades na política online do que na esfera política tradicional, como também a Net mainstream acaba por absorver a quase totalidade do tráfego dos cibernautas, pelo que o essencial do que caracterizava o analógico está a migrar para o digital – online politics is simply “politics as usual”…

Fala-se nas espirais de silêncio que estão a retirar à democracia a dimensão de “valor universal” tal qual era pensada no passado, fala-se nas lógicas de terror – bio ou cyber – que vulnerabilizam ainda mais o sistema democrático… Mas fala-se também num novo humanismo marcado pela multiculturalidade e pelo imperativo de responsabilidade, pela necessidade de criar conteúdo nos media, fala-se numa “nethics”.
Isto para dizer, finalmente, que as novas políticas públicas em matéria de media/new media não podem iludir esta complexidade, nem estas realidades emergentes, sob pena de contribuírem para o adiamento da mudança e para a manutenção do actual estado de coisas.

Justifica-se, portanto, numa estratégia de convergência entre o cultural e o comunicacional, uma opção direccionada prioritariamente para uma aproximação às CCI (Cultural and Creative Industries), ultrapassando as velhas politicas dos sectores de media. Salvaguardar, portanto, a possibilidade de mudar as políticas públicas de convergência, desde logo na reconfiguração do sistema público de media num contexto de migração para o digital.

As novas políticas públicas intersectoriais não podem esquecer que media e new media estão cada vez mais ligados às indústrias criativas e culturais e ao crowdsourcing. Podemos falar da emergência de fortes ciclos de inovação nas narrativas emergentes e nos novos media, no novo espaço público urbano, nas comunidades virtuais e redes sociais, nas cidades criativas, enfim, em todo um novo modelo de convergências que se consagram numa nova economia criativa e cultural.

As políticas públicas sectoriais e intersectoriais não podem mais esquecer estas dinâmicas no plano do conteúdos culturais e criativos e da propriedade intelectual. Estas novas indústrias têm a sua origem na criatividade individual, na inteligência colectiva e nos talentos, com um forte potencial de criação de riqueza e de emprego. É, portanto, uma área que faz congregar a herança cultural e o património das comunidades e nações com o talento e a criatividade dos “produsers”, que aproxima a cultura colaborativa e a indústria dos conteúdos, que integra as próprias vanguardas artísticas, não esquecendo o grande acervo gerado pelos media tradicionais, no plano da informação, da cultura e do entretenimento, e, naturalmente, todo o potencial e a diversidade exponencial da galáxia dos new media. Esse novo mundo está aí a fervilhar e não pode mais ser iludido. É isso que se exige hoje ao public service media e ao reposicionamento das políticas Europeias de media, audiovisual e new media, que devem orientar-se para essa convergência.